sexta-feira, 21 de setembro de 2018

   ''Sou um guerreiro''.

   Diário de um dia matando aula.

   Muitas vezes, apesar de aprendermos algumas coisas na escola, queremos mudar a rotina, já que vemos muitas outras coisas do lado de fora. Com um pouco de ousadia, mas nem muita, podemos sentir coisas maravilhosas. Aqui está como foi um dia ótimo fora da aula.
P.S: Foi um dia de muito aprendizado.


   ''Andei um pouco cansado hoje e tomei um banho (já que não tinha tomado ontem), o tempo passou e quando saí e olhei o relógio, o ônibus já tinha passado havia algum tempo. Sabendo que não tinha o que fazer, preguiçosamente coloquei uma roupa normal e saí de manhã. Fui à Adriana flores, onde comprei uma flor vermelha muito bonita sem pensar muito. No começo achei que ela seria um estorvo carrega-la, mas depois vi que seria uma ótima companhia, e ela é*. O vendedor dela não se expressava muito bem, era contido demais, mas deve ser bom com as plantas que tanto gostam de silêncio, tanto que compartilham isso com todos que as reparam.
   Dois reais pagos, seguro a sacola de plástico verde com um cheiro forte com as duas mãos cuidadosamente, de uma maneira que parece que é muito pesado. Sou um cara grande, imagino, e o modo como estou vestido - algo como ''não fale comigo'' - e o fato de carregar uma flor assim é algo muito bonito de se ver, algo como um trator regando um canteiro numa sacada, digamos. Continuo a andar para o ponto de ônibus, sento, e coloco a flor no chão. Está ventando, então estico a perna esquerda e apoio a alegre plantinha. Está segura.   Escuto um som estranho entre as músicas aleatórias (que já tinha decorado a ordem, de tanto usar esse modo) em meu fone-de-ouvido, olho para o lado e vejo que uma mulher falou comigo - desgraçada! - e tiro a minha música um pouco, Me senti animado e descontraído e então falei gesticulando qualquer bobagem sobre o horário dos ônibus. duas músicas depois, o ônibus chega. Bem, não ''o'' ônibus, nunca havia o pego, nas ele fêz o mesmo caminho dos outros que eu pego, por sorte. Dei um sorriso sem dentes para o motorista e girei a catraca sem dar bola em também cumprimentar a cobradora. irei com força, mas lentamente um banco declinável para o pessoal de muleta e ali fiquei, do lado de uma moça que parecia estar bem de pé.   Não reparei muito na paisagem. Desci num ponto perto do mercado Jaú para ver se o sebo Avalon estava aberto, não estava, e fui em direção à loja onde revelam e compro meus rolos de filme. A esquerda, caso você goste de se localizar mentalmente.   Enquanto passava em frente da praça do paratodos, em reforma, um homem bem vestido porém meio rude veio falar comigo. Ando devagar, então só não puxa assunto que não quer. ''Que flor bonita!'' ele disse, ou algo assim. ''Obrigado'', disse alegre mas neutro, como sou com qualquer estranho, com um sorriso coberto. ''Vai plantar onde?''. ''Lá em casa''. ''Isso dá fruta?''. ''Não, é só flor''. ''Tem que ter massa o fruto, hein? Faz bem!'' disse ele de forma pedagógica. Neste momento fiquei em duvida se ele era louco, ou se eu era (ou menos parecia), isso me vem em mente as vezes, mas não muito. Comprei o rolo de filme por 18R$, o que não é a coisa mais barata do mundo, mas existem coisas que simplesmente valem a pena. Gosto daquele senhor que trabalha nesta loja de fotografia, voltarei mais vezes. Volto a andar na rua principal. Gosto da minha cidade, onde não tem gente demais e nem gente de menos. Dá para conhecer muita gente boa. Chego na praça do bosque.   Vou subindo.    Ainda subindo (é uma praça grande) vou procurando um lugar bonito para eu e minha flor passarmos o tempo, vejo acima um lugar que se pode ver a praça bem pela metade. Avisto um homem tocando pandeiro sem um ritmo mais acima. Subo as escadas pelo meio lentamente levando minha mochila vazia de apostilas, apenas com um caderno, um estojo e o entulho habitual. Encontrei mais tarde também o meu relógio de bolso por lá. Ainda não tinha sentido falta dele.   Sentei. Acomodei a flor. Larguei a mochila. Peguei meu caderno para escrever, ainda com o caderno fechado, olho as árvores balançarem como acenos. ''Ainda estou aqui!'' elas dizem sem poder falar. As maiores com mais de 200 anos, com uma colméia de abelha igualmente enorme, a uns vinte metros de altura.   De repente começo a escutar um canto/berro sendo feito por um homem, a minha direita, descendo as escadas. Um canto/berro sem qualidade quase, mas para ele (imagino) estava ótimo. Como um filme antigo feito com paixões intensas, mas sem instrumentos para executar muito bons, apenas os olhos mais profundos conseguem sentir este desejo, e este desejo cativa, e muito. Ele gritava ''Sou um guerreiro!''. O corpo gordinho do moço barbudo vai descendo a praça sozinho e espalhando seu som com uma força grande que ecoava nas árvores, no vento e nas casas.   E eu ali tive uma visão privilegiada de tudo, o show que durou uns 20 segundos mas que jamais irei esquecer, não sei bem porque, mas jamais. Espero falar com ele um dia, ou quem sabe falar como ele.   Minha flor está alegre ainda, o dia nublado está a alimentando,as vezes as gotas da fonte da praça voam até ela e ela se agrada, espero. As crianças que perto de meu bando brincavam, agora foram embora, agora ali perto há dois estudantes a conversar. Como é bonita a praça com seu ar acolhedor e indiferente para idas e vindas.''
*Olho para minha flor neste momento.

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